Compartilho com vocês a revista do evento de iniciação científica do Centro Universitário de Rio Preto (UNIRP), "Pesquisa Acadêmica: ciência aplicada a sociedade", onde junto com a coordenadora do curso de pedagogia, Andréia Aparecida Ferraz, eu pude desenvolver a pesquisa "Cosmovisão da educação nas licenciaturas - a pedagogia Waldorf".
Deixo aqui o link para o acesso onde o resumo do trabalho encontra-se na página 110.
Começo esse texto com uma agulha fina em uma mão e na outra, uma linha branca. Procuro apertando bem os olhos, o pequeno buraco da agulha, com a língua para fora, consigo passar a linha. Parece não ter sentido esse movimento, mas deixe-me levar para passear em um devaneio pandêmico.
De acordo com o dicionário Aurélio (2010), Intertextualidade é 1. Superposição de um texto a outro. 2. Na elaboração dum texto literário, a absorção e transformação de uma multiplicidade de outros textos. Hoje à tarde, enquanto esfregava os pratos ao som de Eros Ramazzotti, o Youtube iniciou a música "Me espera" da Sandy com Tiago Iorc, uma música que me toca o fundo do meu ser desde a primeira vez que à ouvi.
Enquanto a prataria, os copos e talheres iam limpando-se, dentro de mim, algo também iniciava um processo de limpeza, de clareza e intertextualidade. Uma música lançada dia 1º de maio de 2016, traduzia exatamente um sentimento visceralmente humano que venho sentindo nessa pandemia. Uma intertextualidade, ou não, não é acaso. Na Antroposofia, observamos como tudo o que as mãos produzem, tudo o que os sentidos sentem, tudo o que é humano, ligam-se, interligam-se e intertextualizam-se mutuamente.
ME ESPERA (Lucas Lima/Sandy/Tiago Iorc) Eu ainda estou aqui Perdido em mil versões irreais de mim Estou aqui por trás de todo o caos Em que a vida se fezTiago e Sandy abrem a música mostrando que acima de toda a desarrumação interna e externa, eles ainda sentem e buscam a sua essência.
Tenta me reconhecer no temporal Me espera Tenta não se acostumar Eu volto já Me esperaÉ visível aqui um pedido que alguém faz à si mesmo. Dentro de uma quarentena, de um isolamento social, perder-se dentro de si, dentro do seu pequeno lar de 50m² e criar um temporal pode ser muito fácil, mas o pedido é claro: não se acostume com essa perda, com essa falta, a essência humana de relacionar-se irá voltar. Um ser pedindo à outro ser que o espere(algo muito difícil na atualidade não é mesmo?) Eu que tanto me perdi Em sãs desilusões Ideais de mim Não me esqueci De quem eu sou E o quanto devo a vocêNinguém existe sem o outro, Sartre tinha razão, o quanto devemos uns aos outros? Mas nos perdemos nos passeios que Narciso nos convida para dentro de nós, que nos leva a priorização de nosso sofrimento, cria imagens ilusórias que são um banquete recheado de ansiedade e insanidade. Mas na música, o sujeito afirma algo que muito de nós recusamos em aceitar e permitir: não esquecer de quem se é.
Tenta me reconhecer no temporal Me espera Tenta não se acostumar Eu volto já Me esperaÉ claro que o isolamento social tem trazido sérios danos psíquicos e espirituais ao ser, onde ele reafirma o seu pedido para si: reconheça-se, espere, não se acostume com essa situação incômoda, espere. Todos voltaremos já.
Mesmo quando me descuido Me desloco Me deslumbro Perco o foco Perco o chão E perco o ar Me reconheço em teu olhar Que é o fio pra me guiar De volta De voltaImagine agora, a agulha fina na sua mão e na outra, uma linha vermelha. Vamos passar a linha na agulha delicadamente. Estreite os olhinhos, chegue mais perto, a linha está quase passando e de repente, você lembra-se de algo triste. Afasta o pensamento e continua na missão da agulha. Mas agora, a linha vermelha parece ter perdido sua retidão, não consegue passar pelo pequeno buraco, seus olhos se abriram. Você deixa a agulha de lado.Com a linha vermelha na mão, começa a desenrolar aquele pequeno rolo e as lembranças de todo o tipo vão surgindo, tristes, felizes, engraçadas, vergonhosas, etc. O rolo chega ao fim, a linha precisa voltar para o rolo e inciar de novo, a passagem para a agulha.Assim é o trecho dessa música, é todo o processo de perda da essência, deslocamento, desamparo, insegurança e euforia humana. É linha que vai acompanhando o ser, mas quando ele perde-se, é dentro do próprio olhar, o olhar interno, que faz com que ele possa voltar o trecho de linha para o rolo.E toda linha, cada pedacinho será útil na missão da agulha, tenha certeza.
Tenta me reconhecer no temporal Me espera No temporal Me espera Tenta não se acostumar Eu volto já Me espera
Eu ainda estou aquiTodos nós ainda estamos aqui, mesmo neste temporal, em tantas incertezas, esperamos a volta ao convívio social, não nos acostumamos com esse momento e ainda estamos tentando compreender o que está acontecendo. Como mudar para voltar para que ainda continuemos aqui sem nos perder de novo? Sem negar o que fomos e somos? Sem nos esquecer do quanto devemos uns aos outros? Segundo Aurélio também, Catarse é a purgação, purificação, limpeza. O efeito moral e purificador da tragédia clássica, cujas situações dramáticas, de extrema intensidade e violência, trazem à tona os sentimentos de terror e piedade dos espectadores, proporcionando-lhes o alívio, ou purgação, desses sentimentos (2010).
Ao final, consegui terminar de lavar a louça, senti a intertextualidade que meu âmago produziu entre uma música de quatro anos atrás para o meu sábado de 26 de abril de 2020 durante a quarenta da pandemia da Covid-19 para a catarse onde consegui entender o sentido de esperar o momento para voltar. Passei a linha pela agulha.Referências:Música e letra da música Me Espera: https://www.youtube.com/watch?v=zBUurckfIiE
Imagem: http://gshow.globo.com/Musica/noticia/2016/05/sandy-conta-que-clipe-com-tiago-iorc-foi-gravado-em-um-dia-e-vibra-esta-todo-mundo-elogiando.html
Definições literárias: https://www.recantodasletras.com.br/teorialiteraria/2164178
Todos os dias quando me deito, ouço na madrugada o lixo sendo revirado. Como moro no primeiro andar e de frente para rua, não é incomum eu ver e ouvir esse tipo de cenas. Os catadores e catadoras que passam por aqui já são rostos conhecidos por mim, mas não sei a cor de seus olhos pois sempre estão para baixo. Espero que essa ideia seja passada adiante, e não somente nessa situação, mas que seja eterno esse vírus da compaixão, da fraternidade e da união. Eu sou junto com o outro!
E como eles estão durante a pandemia?
Será que conseguiram o auxílio do governo?
Será que na carroça tem espaço para álcool em gel?
Senti, pensei e agi.
Ide e fazei mais🕊️ Para fazer esse lavatório, usei duas garrafas pet com furos na tampa, foram amarradas com lã em nó de marinheiro, na garrafa de sabão foi-se utilizado 500ml de detergente neutro e álcool em gel 70 misturados água.