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sábado, 25 de abril de 2020

A humanidade em pandemia na música "Me Espera"

      Começo esse texto com uma agulha fina em uma mão e na outra, uma linha branca. Procuro apertando bem os olhos, o pequeno buraco da agulha, com a língua para fora, consigo passar a linha. Parece não ter sentido esse movimento, mas deixe-me levar para passear em um devaneio pandêmico.

      De acordo com o dicionário Aurélio (2010), Intertextualidade  é 1. Superposição de um texto a outro. 2. Na elaboração dum texto literário, a absorção e transformação de uma multiplicidade de outros textos. Hoje à tarde, enquanto esfregava os pratos ao som de Eros Ramazzotti, o Youtube iniciou a música "Me espera" da Sandy com Tiago Iorc, uma música que me toca o fundo do meu ser desde a primeira vez que à ouvi.

     Enquanto a prataria, os copos e talheres iam limpando-se, dentro de mim, algo também iniciava um processo de limpeza, de clareza e intertextualidade. Uma música lançada dia 1º de maio de 2016, traduzia exatamente um sentimento visceralmente humano que venho sentindo nessa pandemia. Uma intertextualidade, ou não, não é acaso. Na Antroposofia, observamos como tudo o que as mãos produzem, tudo o que os sentidos sentem, tudo o que é humano, ligam-se, interligam-se e intertextualizam-se mutuamente.



ME ESPERA
(Lucas Lima/Sandy/Tiago Iorc)

Eu ainda estou aqui
Perdido em mil versões irreais de mim
Estou aqui por trás de todo o caos
Em que a vida se fez
Tiago e Sandy abrem a música mostrando que acima de toda a desarrumação interna e externa, eles ainda sentem e buscam a sua essência.

Tenta me reconhecer no temporal
Me espera
Tenta não se acostumar
Eu volto já
Me espera
É visível aqui um pedido que alguém faz à si mesmo. Dentro de uma quarentena, de um isolamento social, perder-se dentro de si, dentro do seu pequeno lar de 50m² e criar um temporal pode ser muito fácil, mas o pedido é claro: não se acostume com essa perda, com essa falta, a essência humana de relacionar-se irá voltar. Um ser pedindo à outro ser que o espere(algo muito difícil na atualidade não é mesmo?)
Eu que tanto me perdi
Em sãs desilusões
Ideais de mim
Não me esqueci
De quem eu sou
E o quanto devo a você
Ninguém existe sem o outro, Sartre tinha razão, o quanto devemos uns aos outros? Mas nos perdemos nos passeios que Narciso nos convida para dentro de nós, que nos leva a priorização de nosso sofrimento, cria imagens ilusórias que são um banquete recheado de ansiedade e insanidade. Mas na música, o sujeito afirma algo que muito de nós recusamos em aceitar e permitir: não esquecer de quem se é.

Tenta me reconhecer no temporal
Me espera
Tenta não se acostumar
Eu volto já
Me espera
É claro que o isolamento social tem trazido sérios danos psíquicos e espirituais ao ser, onde ele reafirma o seu pedido para si: reconheça-se, espere, não se acostume com essa situação incômoda, espere. Todos voltaremos já.

Mesmo quando me descuido
Me desloco
Me deslumbro
Perco o foco
Perco o chão
E perco o ar
Me reconheço em teu olhar
Que é o fio pra me guiar
De volta
De volta
Imagine agora, a agulha fina na sua mão e na outra, uma linha vermelha. Vamos passar a linha na agulha delicadamente. Estreite os olhinhos, chegue mais perto, a linha está quase passando e de repente, você lembra-se de algo triste. Afasta o pensamento e continua na missão da agulha. Mas agora, a linha vermelha parece ter perdido sua retidão, não consegue passar pelo pequeno buraco, seus olhos se abriram. Você deixa a agulha de lado. Com a linha vermelha na mão, começa a desenrolar aquele pequeno rolo e as lembranças de todo o tipo vão surgindo, tristes, felizes, engraçadas, vergonhosas, etc. O rolo chega ao fim, a linha precisa voltar para o rolo e inciar de novo, a passagem para a agulha. Assim é o trecho dessa música, é todo o processo de perda da essência, deslocamento, desamparo, insegurança e euforia humana. É linha que vai acompanhando o ser, mas quando ele perde-se, é dentro do próprio olhar, o olhar interno, que faz com que ele possa voltar o trecho de linha para o rolo. E toda linha, cada pedacinho será útil na missão da agulha, tenha certeza.

Tenta me reconhecer no temporal
Me espera
No temporal
Me espera
Tenta não se acostumar
Eu volto já
Me espera

Eu ainda estou aqui
Todos nós ainda estamos aqui, mesmo neste temporal, em tantas incertezas, esperamos a volta ao convívio social, não nos acostumamos com esse momento e ainda estamos tentando compreender o que está acontecendo. Como mudar para voltar para que ainda continuemos aqui sem nos perder de novo? Sem negar o que fomos e somos? Sem nos esquecer do quanto devemos uns aos outros?
    Segundo Aurélio também, Catarse é a purgação, purificação, limpeza. O efeito moral e purificador da tragédia clássica, cujas situações dramáticas, de extrema intensidade e violência, trazem à tona os sentimentos de terror e piedade dos espectadores, proporcionando-lhes o alívio, ou purgação, desses sentimentos (2010). Ao final, consegui terminar de lavar a louça, senti a intertextualidade que meu âmago produziu entre uma música de quatro anos atrás para o meu sábado de 26 de abril de 2020 durante a quarenta da pandemia da Covid-19 para a catarse onde consegui entender o sentido de esperar o momento para voltar. Passei a linha pela agulha. Referências: Música e letra da música Me Espera: https://www.youtube.com/watch?v=zBUurckfIiE Imagem: http://gshow.globo.com/Musica/noticia/2016/05/sandy-conta-que-clipe-com-tiago-iorc-foi-gravado-em-um-dia-e-vibra-esta-todo-mundo-elogiando.html Definições literárias: https://www.recantodasletras.com.br/teorialiteraria/2164178

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Livro: Uma Ética para o Novo Milênio (Dalai Lama)

      Nesses tempos de quarentena, a leitura tem me mantido são. Esse livro ajudou-me à refletir tanto. Tamanha sua profundidade que levei três semanas e meia para terminá-lo.

      Dalai Lama escreveu esse livro na virada do milênio (em 1999). Dentro do contexto histórico, as pessoas naquele ano estavam apreensivas e muitas até achavam que o mundo iria acabar no dia 31 de dezembro. Ainda bem que não acabou, porque eu havia chegado no mundo em fevereiro daquele ano e não teria oportunidade de ver absolutamente nada.


    Dalai Lama em diversas páginas nos coloca todos como seres que querem ser felizes e não sofrer, independente de toda e qualquer diferença, essa semelhança em nós perpetua-se em todo o canto do mundo. Ele sugere maneiras de como podemos contribuir para que isso se realize nesse novo milênio, e até mesmo dá sugestões para que os que não querem contribuir, para que não atrapalhem.

      É claro que eu não pude deixar de me chatear sobre o fato de como Dalai estava esperançoso sobre o futuro, sobre a maneira como o home relaciona-se com seus semelhantes, a fauna e a flora, e em pleno 2020 uma pandemia é causada pelo modo como homem possui uma relação doentia com o sistema capitalista e a materialidade.
      
      Mas algo naqueles 1999 continuou e desenvolveu e Dalai notou bem. Desde a década de 70 e principalmente, 80, a humanidade abriu espaço para diálogos de temas que até então eram incomuns ou economicamente irrelevantes, Paz, Amor, fraternidade, união, respeito, direitos humanos, qualidades espirituais básicas, são temas que tem tomado as redes sociais atuais. E nisso Dalai Lama está certo, todos se abriram para esses temas, queiram ou não, concordem ou não. Vou me apegar à essa esperança de que essa pandemia possa trazer de novo uma Nova Ética para o Novo Milênio. Fica aqui minha indicação e a oração que encontra-se na última página do livro.

Livro: Uma Ética para o Novo Milênio
Autor: Dalai Lama
Ano: 1999
Editora: Sextante