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segunda-feira, 4 de maio de 2020

Voltar a ser menino

      Voltar à ser menino, pequenino, de colo. Hoje me sinto como um pequeno menino, andando os primeiros passos. Eu vou me despindo dos medos que minha mãe julgou sobre mim quando ainda estava em seu ventre.

      Mãe, eu jamais te julgaria pelo que você fez. Mas enquanto eu ainda estava dentro de ti, você colocou sobre mim essa suposição, e até hoje, aos meus 21 anos eu tenho julgado até mesmo se uma formiga anda para a direita e não para a esquerda e hoje eu consigo ver claramente o motivo: antes de eu me formar, uma energia envólucra criou em mim o pensamento julgador. E me fez julgar tudo e todos, quando na verdade dentro da minha mãe havia o eterno medo de ser julgada por mim. Não mãe, nunca te julgaria, e talvez, jamais julgasse ninguém.
      
      Mas foi assim, de repente, duas fotos 3X4 mudaram 21 anos que eu achava que sabia sobre mim, foram segundos. Eu sempre tenho o hábito de dizer que para a confiança ser construída, levam-se anos mas para perdê-la leva apenas alguns segundos. Hoje eu diria, que o conhecimento empírico da vida leva realmente uma vida, mas o conhecimento do que está escondido, basta apenas algumas palavras, ou um par de pequenas fotos.

      Essas pequenas fotos mudaram tudo, meu rumo, meu pertencimento, meu pé no mundo, meu mundo. Sinto como se tivesse acabado de chegar ao mundo de novo, mas afinal, eu não cheguei? Pai, estou pronto. Quero te conhecer. A vida é doce!

sábado, 25 de abril de 2020

A humanidade em pandemia na música "Me Espera"

      Começo esse texto com uma agulha fina em uma mão e na outra, uma linha branca. Procuro apertando bem os olhos, o pequeno buraco da agulha, com a língua para fora, consigo passar a linha. Parece não ter sentido esse movimento, mas deixe-me levar para passear em um devaneio pandêmico.

      De acordo com o dicionário Aurélio (2010), Intertextualidade  é 1. Superposição de um texto a outro. 2. Na elaboração dum texto literário, a absorção e transformação de uma multiplicidade de outros textos. Hoje à tarde, enquanto esfregava os pratos ao som de Eros Ramazzotti, o Youtube iniciou a música "Me espera" da Sandy com Tiago Iorc, uma música que me toca o fundo do meu ser desde a primeira vez que à ouvi.

     Enquanto a prataria, os copos e talheres iam limpando-se, dentro de mim, algo também iniciava um processo de limpeza, de clareza e intertextualidade. Uma música lançada dia 1º de maio de 2016, traduzia exatamente um sentimento visceralmente humano que venho sentindo nessa pandemia. Uma intertextualidade, ou não, não é acaso. Na Antroposofia, observamos como tudo o que as mãos produzem, tudo o que os sentidos sentem, tudo o que é humano, ligam-se, interligam-se e intertextualizam-se mutuamente.



ME ESPERA
(Lucas Lima/Sandy/Tiago Iorc)

Eu ainda estou aqui
Perdido em mil versões irreais de mim
Estou aqui por trás de todo o caos
Em que a vida se fez
Tiago e Sandy abrem a música mostrando que acima de toda a desarrumação interna e externa, eles ainda sentem e buscam a sua essência.

Tenta me reconhecer no temporal
Me espera
Tenta não se acostumar
Eu volto já
Me espera
É visível aqui um pedido que alguém faz à si mesmo. Dentro de uma quarentena, de um isolamento social, perder-se dentro de si, dentro do seu pequeno lar de 50m² e criar um temporal pode ser muito fácil, mas o pedido é claro: não se acostume com essa perda, com essa falta, a essência humana de relacionar-se irá voltar. Um ser pedindo à outro ser que o espere(algo muito difícil na atualidade não é mesmo?)
Eu que tanto me perdi
Em sãs desilusões
Ideais de mim
Não me esqueci
De quem eu sou
E o quanto devo a você
Ninguém existe sem o outro, Sartre tinha razão, o quanto devemos uns aos outros? Mas nos perdemos nos passeios que Narciso nos convida para dentro de nós, que nos leva a priorização de nosso sofrimento, cria imagens ilusórias que são um banquete recheado de ansiedade e insanidade. Mas na música, o sujeito afirma algo que muito de nós recusamos em aceitar e permitir: não esquecer de quem se é.

Tenta me reconhecer no temporal
Me espera
Tenta não se acostumar
Eu volto já
Me espera
É claro que o isolamento social tem trazido sérios danos psíquicos e espirituais ao ser, onde ele reafirma o seu pedido para si: reconheça-se, espere, não se acostume com essa situação incômoda, espere. Todos voltaremos já.

Mesmo quando me descuido
Me desloco
Me deslumbro
Perco o foco
Perco o chão
E perco o ar
Me reconheço em teu olhar
Que é o fio pra me guiar
De volta
De volta
Imagine agora, a agulha fina na sua mão e na outra, uma linha vermelha. Vamos passar a linha na agulha delicadamente. Estreite os olhinhos, chegue mais perto, a linha está quase passando e de repente, você lembra-se de algo triste. Afasta o pensamento e continua na missão da agulha. Mas agora, a linha vermelha parece ter perdido sua retidão, não consegue passar pelo pequeno buraco, seus olhos se abriram. Você deixa a agulha de lado. Com a linha vermelha na mão, começa a desenrolar aquele pequeno rolo e as lembranças de todo o tipo vão surgindo, tristes, felizes, engraçadas, vergonhosas, etc. O rolo chega ao fim, a linha precisa voltar para o rolo e inciar de novo, a passagem para a agulha. Assim é o trecho dessa música, é todo o processo de perda da essência, deslocamento, desamparo, insegurança e euforia humana. É linha que vai acompanhando o ser, mas quando ele perde-se, é dentro do próprio olhar, o olhar interno, que faz com que ele possa voltar o trecho de linha para o rolo. E toda linha, cada pedacinho será útil na missão da agulha, tenha certeza.

Tenta me reconhecer no temporal
Me espera
No temporal
Me espera
Tenta não se acostumar
Eu volto já
Me espera

Eu ainda estou aqui
Todos nós ainda estamos aqui, mesmo neste temporal, em tantas incertezas, esperamos a volta ao convívio social, não nos acostumamos com esse momento e ainda estamos tentando compreender o que está acontecendo. Como mudar para voltar para que ainda continuemos aqui sem nos perder de novo? Sem negar o que fomos e somos? Sem nos esquecer do quanto devemos uns aos outros?
    Segundo Aurélio também, Catarse é a purgação, purificação, limpeza. O efeito moral e purificador da tragédia clássica, cujas situações dramáticas, de extrema intensidade e violência, trazem à tona os sentimentos de terror e piedade dos espectadores, proporcionando-lhes o alívio, ou purgação, desses sentimentos (2010). Ao final, consegui terminar de lavar a louça, senti a intertextualidade que meu âmago produziu entre uma música de quatro anos atrás para o meu sábado de 26 de abril de 2020 durante a quarenta da pandemia da Covid-19 para a catarse onde consegui entender o sentido de esperar o momento para voltar. Passei a linha pela agulha. Referências: Música e letra da música Me Espera: https://www.youtube.com/watch?v=zBUurckfIiE Imagem: http://gshow.globo.com/Musica/noticia/2016/05/sandy-conta-que-clipe-com-tiago-iorc-foi-gravado-em-um-dia-e-vibra-esta-todo-mundo-elogiando.html Definições literárias: https://www.recantodasletras.com.br/teorialiteraria/2164178

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Ide e fazei mais

      Todos os dias quando me deito, ouço na madrugada o lixo sendo revirado. Como moro no primeiro andar e de frente para rua, não é incomum eu ver e ouvir esse tipo de cenas. Os catadores e catadoras que passam por aqui já são rostos conhecidos por mim, mas não sei a cor de seus olhos pois sempre estão para baixo. Espero que essa ideia seja passada adiante, e não somente nessa situação, mas que seja eterno esse vírus da compaixão, da fraternidade e da união. Eu sou junto com o outro!
      E como eles estão durante a pandemia?


      Será que conseguiram o auxílio do governo?

      Será que na carroça tem espaço para álcool em gel?
      Senti, pensei e agi.
      Ide e fazei mais🕊️

      Para fazer esse lavatório, usei duas garrafas pet com furos na tampa, foram amarradas com lã em nó de marinheiro, na garrafa de sabão foi-se utilizado 500ml de detergente neutro e álcool em gel 70 misturados água.

terça-feira, 14 de abril de 2020

Os meus dois corações

  (Leia esse texto acompanhado da música O Bem e o Mal de Danilo Caymmi)

      Ultimamente tenho visto que realmente possuo dois corações. Um que bate vertiginosamente para o real, o concreto, o que me puxa para o chão. O outro, é um devaneio brincante, conduzido completamente pelo meu signo de nascimento, peixes.

      É esse segundo coração que nada. Nada longe, me escapa, me perde, me enlouquece, me faz engolir o orgulho e me mostra que esse coração ainda tem muito o que ensinar à mim. Um coração professor. O coração de um professor, que é professor, é isso. Eu abaixo minha cabeça e meus olhos, abro apenas os meus ouvidos para o que ele tem à dizer, e ainda assim, às vezes acabo entendo errado a lição. Eu bem que tento perguntar ao professor quando tenho uma dúvida, mas ele tem a péssima metodologia de devolver a pergunta ao seu aluno.

      Eis me aqui, na sala de aula da vida, aprendendo as duras lições desse coração-professor. Mas e o primeiro coração? Aquele que é racional e inteiro pensar? Ah, esse prefere calar-se e decidiu que a sua maior lição será o silêncio. Ele me ensina o peso que a racionalidade possui, e garanto, é bem pesado. É pesado o suficiente para que meus pés não escapem do chão. Esse silêncio me é lembrete de que ele está lá, o coração-professor-racional, quando pergunto à eles e a pergunta me é devolvida, eis o silêncio, eis o peso da razão.

      Esses dois professores, ensinam-me o equilíbrio do sentir e do pensar. É claro, não é fácil. É sofrido sim, é dolorido e às vezes, nauseante, mas é parte do processo de aprendizagem, deve ser alguma pedagogia visceral. Eu caminho ouvindo as lições, perguntando, registrando, como todo aluno, esqueço mas relembro. Mas aprendo, ou não.

Referências: 
Imagem dos corações: http://cliquetando.xpg.com.br/2014/12/tatuagem-de-coracao-humano-realista-significado-e-desenhos.html
Música: O Bem e o Mal de Danilo Caymmi (Álbum Trilhas, 1992): https://www.youtube.com/watch?v=neOnBHKx5jg

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Os filósofos reagem ao Coronavírus

lamiamate – marisa montanarelli
      Bom, acabei de ver uma ótima postagem no blog de uma amiga que fiz aqui na blogosfera, a Camila Rodrigues do Pequenidades e resolvi trazer para cá, para dividir comigo e com todos os que leem esse cantinho.

O que os filósofos diriam sobre estes tempos de Coronavírus?

PLATÃO
Fiquem na caverna, porra!
FRIEDRICH NIETZCHE
Fique em casa, por mais difícil que seja suportar sua própria presença.
RENÉ DESCARTES
Habito, ergo sum.
HEGEL
Tese: fique em casa;
Antítese: fique em casa;
Síntese: fique em casa.
HERÁCLITO
Não se pega duas vezes o mesmo vírus, na segunda vez o vírus e você já são outros.
JEAN JACQUES ROUSSEAU
O homem é bom por natureza, mas o vírus o corrompe.
ARISTÓTELES
O vírus está apenas cumprindo seu papel no Cosmos ao infectar corpos.
SANTO AGOSTINHO
A medida de amar é amar longe.
SÃO FRANCISCO DE ASSIS
Onde houver vírus, que eu leve álcool em gel.
PROTÁGORAS
O vírus é a medida de todas as coisas.
HANNAH ARENDT
Para o vírus, matar é uma tarefa banal e cotidiana.
IMMANUEL KANT
Duas coisas me enchem a alma de crescente admiração e respeito, quanto mais intensa e frequentemente o pensamento delas se ocupa: o céu estrelado lá fora e eu aqui dentro.
SIGMUND FREUD
O vírus dá plena vazão a suas pulsões reprodutivas porque não é reprimido sexualmente, na infância, pela civilização.
LUDWIG WITTGENSTEIN
Aquilo que não se pode contrair, não se pode transmitir.
JACQUES DERRIDA
O objetivo de todo vírus deve ser a desconstrução do corpo infectado.
ZYGMUNT BAUMAN
A maior evidência da sociedade líquida é sua dependência do álcool.
VILÉM FLUSSER
O DNA do vírus não pode ser decodificado porque a escrita acabou.
MICHEL FOUCAULT
Esses métodos que permitem o controle minucioso das operações do corpo são o que podemos chamar vírus.
WALTER BENJAMIN
A reprodutibilidade excessiva e sem freios do vírus traz como consequência a perda de sua aura de sacralidade.
SIMONE DE BEAUVOIR
Não se nasce infectado, se torna infectado.
JEAN PAUL SARTRE
Nada a retificar, o inferno são os outros.
KARL MARX
Trabalhadores do mundo, separai-vos.
CRISTO
Amai-vos uns aos outros ficando longe uns dos outros.
OLAVO DE CARVALHO
O vírus é um idiota, eu sou um idiota. Na verdade nem sei o que estou fazendo aqui nesta lista, nunca fui filósofo.
JUDITH BUTLER
O fato de esta lista ser composta por 95% de homens revela como a história da humanidade é a história da dominação patriarcal. Homens são o verdadeiro vírus.

(Autor: Arzírio Cardoso)

Pandemicamente, humanos.

   Eis que chego ao meu último ano na faculdade. Tudo parece correr bem, exceto por uma previsão que havia ouvido de amigos de que no início desse ano, algo muito ruim iria acontecer, mas que viria para mudar a humanidade. Confesso, que jamais imaginei uma pandemia.

      Quando estudei a gripe espanhola sentado na cadeira da escola no 6º ou 7º ano, jamais imaginei presenciar algo parecido. Não nego que sempre quis participar ou ver um grande evento histórico que mobilizasse a humanidade, mas eu disse evento, não tragédia. Mas, não tive escolha, estou vivendo a tragédia histórica do Covid-19.

      Quando estava trabalhando, uma mãe de um aluno perguntou-me se a escola iria aderir à paralização, eu de início achei bobagem, mas hoje saio com medo para a  rua. Saio saudável de casa e assim que voltar, posso parar em um hospital com pouquíssimas chances de vida.

      Ando pela casa, às vezes me sinto entediado, irritado, com medo, ansioso, humano. Ligo a TV e os números e estatísticas só aumentam, pego o meu celular e mais números. Paro. Abro o livro "Uma Ética para o Novo Milênio", escrito por Dalai Lama na vidrada do milênio (1999), tentando achar caminhos e novas formas de pensar para os anos 2000 que viriam. Quanta discrepância do que foi escrito naquela época para o que viria acontecer em 2020. Dalai Lama se sentiria desesperado ao ver tanto avanço tecnológico e cultural, mas quanto retrocesso humano.

      É claro, apenas uma pandemia poderia acontecer em tais circunstâncias. E o pior, não estou vendo ninguém melhorar com tudo isso que está ocorrendo. Vejo muitos correndo para lados opostos, loucos, desesperados, cegos, egos, egoístas.

      Não pensam no próximo, talvez porque não estão nem conseguindo pensar em si. Parem. Parem. Parem.